O SUS ainda é marcado por uma territorialização definida pelo espaço físico. É um grande avanço, sem dúvida, porque é preciso levar em consideração o lugar em que vivem os usuários do SUS. Mas existem casos em que essa lógica se mostra insuficiente. Por exemplo: como cuidar do morador de rua? Esse é mais um caso que ilustra nossa dificuldade em recriar a lógica da atenção e nossa fragilidade em propiciar encontro entre subjetividades. Como entender esse sujeito que precisa de cuidado? Como extrapolar as nossas limitações quando nos deparamos com pessoas que fogem à "norma"? E nesse caso, a julgar pelos dados, o fenômeno "morador de rua" não é incomum, um dos sinônimos da palavra "norma". Assim, nota-se que, cada vez mais, cresce o número de pessoas que habitam a rua, por inúmeras razões de ordem psicossocial.
Retomando acontecimentos recentes: Mais uma vez emerge alguns acontecimentos recentes de moradores de ruas incendiados em seu sono ("Dormir, talvez sonhar"). Um desses casos não me saí da cabeça: o do índio incendiado em Brasília quando dormia. Os jovens que atearam fogo se justificaram dizendo que não sabiam que era um índio, mas que era um "mendigo". Por que pessoas que perambulam em condições tão grotescas de não-higiene incomodam tanto? Por que tanto impedimento no cuidado COM essas pessoas? Será que nos esquecemos do cuidado como uma tarefa que envolve DOIS sujeitos: o profissional da saúde e/ou do serviço social COM o morador de rua? Será que existe um abismo entre esses sujeitos? Como é esse abismo? Qual sua origem?
Cada vez mais penso que é preciso pensar nas mudanças das relações da época contemporânea, que parecem mais descartáveis. Ou seja, as relações entre as pessoas parecem cada vez mais descartáveis, tal como a marcha do consumismo capitalista. Cada vez mais parece insuportável investir em relações, pois o tempo urge. É preciso ter coisas, que talvez facilite dizer quem somos, do que procurarmos construir formas de relações, uma vez que as pessoas são muito difíceis de se manter vinculações de uma ordem não marcada por coisa palpáveis. As pessoas nos traem, decepcionam, magoam. As coisas, "em si mesmas", são mais estáveis estão lá e nos dizem, de alguma forma, em que lugar estamos na sociedade. Se tenho uma Ferrari ou moro num apartamento com tres lugares na garagem, com circuito interno de vigilância, posso SER MAIS POR TER MAIS. Se perambulo e minha pessoas fede, melhor ser desinfetado a ferro e fogo, pois assim se matam os micróbios! Eis o Contemporâneo. Não que no passado fosse melhor. Teve épocas que essas pessoas "inconvenientes" eram colocadas em grandes navios a perambular pelo mar ("A Nau dos loucos"). O perambular não incomodava, desde que ocorresse em outros espaços diferentes dos "homens de bem" (bens materiais?). Hoje essas pessoas são incendiadas ou adoecem de um mal do século 19! Tempos diferentes, com contexto diferentes, que produzem formas de subjetivações peculiares. Essas devem ser refletidas para que se possa produzir um "novo cuidado", resultante de uma aproximação entre os sujeitos, para que possam dialogar, a partir de suas diferenças subjetivas, mas que não signifique abismo inter-subjetivo.
Tomando-se essa reflexão, chego à seguinte constatação: É preciso ampliar a organização do sistema de saúde para dar conta do cuidado para as peculiaridades subjetivas (biopsicossocialmente marcadas) dos cuidadores e sujeitos-em-cuidado. Para isso, é urgente pesquisar o atual cuidado para com essas pessoas moradoras de rua de modo a criar um "novo cuidado".
Vira e mexe o SUS e nós com os seus nós...Eis mais um desafio!
sexta-feira, 13 de abril de 2007
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1 comentários:
Fiquei feliz de conhecer seu blog e sua preocupação com as pessoas que vivem nas ruas. Escrevo um blog sobre pessoas em situação de rua e uma das histórias que conto exemplifica o que fala no seu post. Talvez você queira dar uma olhada. O endereço é http://blogdarua.blogspot.com/2006/10/acessando-os-servios-de-sade.html
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